Projeto

O projeto se pretendia, desde o inicio, grandioso! Reunir crianças que tivessem o português como língua mãe, de países distintos. Obviamente, partimos do Brasil, e a cidade escolhida foi Brasília. Primeiro pelo sincretismo cultural que a mesma representa, construída por operários vindos de todo o pais. Que chegaram em busca de trabalho e que acabaram criando raízes e definindo o caráter cosmopolita da nova capital da república.  Segundo pela data que se aproximava. Meio século de sua fundação! Tudo, desde o início conspirou para que a cidade brasileira escolhida fosse Brasília. Portugal acabou sendo a segunda escolha mais óbvia. Sem a iniciativa dos portugueses, séculos atrás, de sair explorando novas rotas de comércio, não seriamos o Brasil! Pelo menos, não o Brasil que somos hoje! Afinal, de onde veio a nossa Língua Mãe? Por fim, pensamos que teríamos que ir em busca de nossas outras origens. Dos povos que também foram fundamentais para a formação da nossa identidade.  África! Buscaríamos um pais africano, ex-colônia de Portugal, para representar toda a africanidade da qual também descendemos. Reuniríamos três povos, de três continentes, ligados pelas raízes ancestrais, pela língua máter, e principalmente, pela maior das línguas mães, a Música! A busca, ao final de tudo, seria a busca pelas raízes musicais destes três povos. A língua mãe que é capaz de definir culturas, e ao mesmo tempo, trazer equilíbrio ao diálogo de culturas que não comungam de uma mesma língua. A música que define, separa, delimita distintas raças, ao mesmo tempo aproxima, quebra barreiras, e une nações as vezes muito diversas entre si!

E quem, além de Naná Vasconcelos, representaria tão bem essa comunhão entre essas culturas? Um homem do mundo, que em sua negritude, carregava entranhado nas veias, o DNA de nosso passado africano, de nossa descendência européia, e da nossa formação mestiça, com influência de nossos índios ancestrais. Naná foi o leit motiv de toda a concepção do projeto.

O Língua Mãe partiu, inclusive, de um projeto já existente (o ABC Musical – um projeto fruto de uma parceria entre Naná Vasconcelos e o Maestro Gil Jardim), e de uma vontade expressada por Naná, de torná-lo internacional. A vontade de poder trazer crianças de outros países para compartilhar experiências musicais no Brasil!

Definido isto, foi relativamente fácil juntar as peças até que chegássemos ao formato final do projeto. Faríamos três oficinas, em três continente, em três países que tivessem o português como língua mãe. Depois reuniríamos todas as crianças participantes em um espetáculo comemorativo dos 50 anos de Brasília, nossa capital, representativa da diversidade cultural e racial de nossa nação, e de nossa formação como povo. Documentaríamos todo o processo para a produção de um filme documentário (um documento vivo, para a posteridade), como se fosse mais um produto a reinteirar o caráter unificador de todos os povos. Somos todos de uma mesma raiz! Viemos de um mesmo lugar!

Por fim, logicamente, produziríamos um DVD do espetáculo, que seria a perpetuação de um momento tão único. O espetáculo, ponto culminante do projeto, teria que acontecer, necessariamente, em Brasília. Buscamos, então, os trâmites que tornariam possível a realização do mesmo na Sala Villa Lobos (também representativo dessa comunhão de culturas), do Teatro Nacional Cláudio Santoro, com a participação de sua Orquestra, que acompanharia Naná e o coro das crianças participantes das oficinas.

Um projeto de Marinho Andrade e Alexandre Nogueira.